sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Fernando Pessoa inspira...





Os alunos do 12º ano, a estudar Fernando Pessoa e os seus heterónimos, inspirados pela Ode Trinufal de Álvaro de Campos, criaram alguns textos que aqui partilhamos.

 
ODE TRIUNFAL DE ENALTECIMENTO A PORTUGAL


Pelas ruas repletas de luzes natalícias,
Nem uma réstia de pobreza se avista.
Até os mendigos regelados e engelhados nos cobertores de papel
São ofuscados pela maré de montras, de sacos, de gente.
E eu, tremendo o queixo, aprecio isto tudo,
A beleza do precipício entre quem tem tudo e quem não tem nada.

Ah! Espírito natalício que repovoas lojas outrora cheias de moscas!
Ah! Maravilhosas boutiques que vendem tudo o que não serve para nada!
Ah! Lojas do chinês em cada esquina!
Ah! Barracas e barraquinhas de bugigangas
E de porcarias maravilhosamente inúteis!
Ah! Crianças chorando, berrando, batendo o pé,
Por quererem, pobrezinhas, o brinquedo último-modelo!
E os pais que compreensivos lhes dão tudo,
Mesmo não tendo dinheiro para nada!
Ah! Como isto é belo!

Viva a crise, viva o FMI, VIVA!
Viva os políticos de quinta e a corrupção!
Viva os submarinos e as escutas escandalosas!
Viva os jornais sensacionalistas!
Viva às aparências que são tudo mesmo não sendo nada!
Esta fantochada toda que me consome!
Viva os alunos que não chegam à Universidade!
E os salários que não chegam nunca, URRA!
Trabalhadores descontentes em greve, fábricas paradas!
Viva o Governo e todas as suas maravilhosas escolhas para o nosso país!
Viva! Viva! VIVA!
Viva a sopa dos pobres e os sem-abrigo despejados pelos cantos das ruas!
Viva a fome e a vergonha,
Num país que foi um dia dono do mundo e agora nem dono de si é.

Ah, mas quem quer saber de pobreza quando há a ciência!
Que importa crianças morrerem à fome,
Quando há brilhantes pequenos crânios que são o futuro?
Ah, maravilhosos avanços! Vós sois tudo!
Ele há esperma congelado e descongelado!
Ele há bebés provetas e barrigas de aluguer e mulheres subornadas!
Ele há crianças abandonadas, presas a processos de adoção
Que duram anos e para sempre
Porque não são prioridade neste mundo incrivelmente insensato e veloz.
Ele há colheitas alteradas,
Ele há manipulação de vacas e porcos e tudo!
Ele há querer tudo e querer rápido!
E uns têm tudo e os outros… não interessam.

Ah! Pudera eu ser veloz como este mundo e estas máquinas!
Ó TGV e carros elétricos!
Ó carros com mais cavalos que qualquer centro de equitação!
Ó maravilhosa tecnologia!
Eia! iPhones, iPads, iPods, ai tudo!
Eia! Dispositivos pequenos e muito pequenos e pequeníssimos!
De última ponta, de última geração, últimos em tudo!

E as guerras, e os esquemas políticos,
E a prostituição, e o tráfico infantil,
E os maravilhosos escândalos deste mundo,
Fazem-me ter orgulho em viver nele e pertencer-lhe!
E a mesquinhez das pessoas,
E os sorrisos flácidos.
Ah! Pudera eu ouvir os seus pensamentos maldosos!

Mas aqui na rua feita de pessoas e encontrões,
Sou só mais um cão vagueando sem rumo,
Vendo-os comprar, vender, trocar.
Ah! Maravilhosas gentes donas do seu nariz empinado,
Que sem a aparência não são nada!
Que não veem que a felicidade do mundo
Não está no dinheiro que trazem no bolso contado.

Quem dera ser eu também nada,
E seria também eu feliz.

Não sou Álvaro de Campos,
mas serei alguém um dia.
(Débora Monteiro 12ºB)




A ODE DO MEU TEMPO

Ao passar nos corredores daquela máquina monstruosa,
que fatura, como um contador de eletricidade,
os meus olhos vidram!
Dinheiro! Tecnologia! Moda! Decoração!
Tudo, tudo, tudo ecooooooooa na minha cabeça, como se fosse um rouxinol,
num dia de primavera. Todos esses sons são música para os meus ouvidos.

Ó ipad, ó iphone, já vos sinto nas minhas mãos como se fizessem parte do meu corpo.
Parte essencial, sem a qual não consigo viver, como se fossem a minha boca,
a minha mente, a minha janela para o mundo, a minha água e o meu alimento.
Somos um só corpo e uma só alma.
Mas quem diz um telemóvel ou um computador, diz também últimas modas que saem em Nova Iorque, Paris e Milão e que toda a gente inveja.
Por mais caras que sejam, os que têm muito ou pouco dinheiro arranjam sempre espaço no orçamento para desfilar com aquelas roupinhas, diria eu intocáveis, de ouro ou diamante. Pelo preço que custam!

Ai roupa, ai luxo, ai bijutaria e ourivesaria, que fazes com que todo o meu dinheiro desapareça, como se a carteira estivesse rota!
Mas, não está! Apenas compro aquilo de que não preciso,
que não passa de futilidades, que me deixa louco, fora de mim.

E depois aparecem todos aqueles anúncios que me fazem comprar mais e mais e mais….Como se um vício me consumisse.

Quem me dera ser milionário e não pensar nisso! A verdade é que sou um pobre homem e um homem pobre, que gastou tudo aquilo que tinha para comer, beber e dormir! Agora, até a dignidade da alma está pobre.
19. Novembro. 2013
Daniela Silva



ODE À IGNORÂNCIA




Este frio que me atinge passa por mim
E não me vê.
Talvez a loucura esteja a tomar conta do meu não ser,
E me assole a consciência, nas horas menos vagas
Mas, a verdade, é que não sei o que estou a escrever.

Porque hei de tentar perceber algo
Que não me percebe a mim?
Porque hei de tentar compreender aquilo
Que me ignora?
Porquê?
Porquê, se tudo é verdade à minha volta,
Se tudo é real?
Para quê, se posso falar em aforismo
Aquando do século XII,
E com isto parecer culto, sábio,
Entendido nos assuntos mais entediantes da sociedade contemporânea!
Para quê, quando posso misturar temáticas tão similares como
Pássaros de corda e a nova conceção aristotélica de estado
(Com um bocadinho de quartas aumentadas,
Tudo feito em prol da Ars Antiqua, claro está)
E fazer a mesma figura que um pintor faz a
Passar o céu para uma simples tela branca!
Não somos ambos dotados de algo inalcançável
Para o comum dos mortais?
A capacidade de misturar cores e de se ver algo real, no fim?...
Vocês dizem que sim, mas pensam não!
Não, porque, na realidade,
Não estão a perceber nada do que eu quero dizer!...

Mais uma pontada de loucura

Mas também, se eu tivesse de fazer um quadro, não
Pintava o céu, tema tão mundano.
Pintaria um rosto.
O rosto de um condenado, um minuto antes do golpe da guilhotina,
Quando ainda está de pé no cadafalso,
Quando a cabeça funciona intensamente,
Atentando a todos os pormenores que a rodeiam,
Cheia de pensamentos ridículos e despropositados!
Aquele instante, em que o condenado se lembra de tudo,
Ao ponto de ser impossível esquecer, impossível desmaiar,
Impossível morrer!!!
Como me fui eu lembrar de uma coisa destas?...
Ah! Não fui eu!
Alguém muito antes de mim teve um ataque de genialidade…
(a mim só os de loucura)
Mas, claro, vocês não sabem.

No outro dia, vi-te.
Como é costume, estavas a dançar no meio da rua.
Nunca sei o que fazer nestas situações.
Sinto-me pouco instruído sobre a melhor maneira de lidar
Com isto…
Mas sabes, quem me dera ser como tu!
Poder dançar no meio da rua,
Sempre sabendo como agir!
Quem me dera não ter que saber, não ter que pensar que sei,
Porque na realidade não sei, e com isto, sabendo que não,
Há algo que sei, mesmo que seja a confirmação do meu não saber…

Outra vez a loucura mas, que dor é esta?!...

Para desanuviar: Eu sou o que é.
É incrível, como basta fazer uma simples substituição, e
O que era dos outros passa a ser nosso!
Ah, como eu adoro falar eloquentemente,
Sem vocês saberem!
Mas, mesmo assim, eu admiro-vos!
Porque são ignorantes, idiotas…como eu sou!
Como eu fui sem saber e… como eu serei?

Mas, ainda há pior do que nós…
Tem de haver… Sim!
Ignorantes extremos, que nos iludem
Com os seus belos artifícios…
Que nos trazem sensações que eles nunca tiveram!
Ele! Aquele ignorante!
Muito ignorante, aliás…
Aquele que não conhecia a essência de várias coisas!...
Mas que me fez cheirar narcisos,
Através do tato inexistente da tinta negra.

Um arrepio…

Chega de mentiras: eu invejo-vos
Mesmo sabendo que sou como vocês.
Eu admiro-vos porque sei que
Sou ainda pior.
Assim, neste dia de frio,
As coisas mudam, e
Não saber, nem querer saber,
Passa a ser a linha do meu eu existente
Na minha não existência.

Vou libertar-me: vou
Recusar tudo, dizer não a todos.
Vou entregar-me ao vazio,
Recusar este preenchimento oco.
Vou dar-me ao gozo de
Recusar passar a manhã a tentar criar
Aquilo que outrora conheci
E continuo a buscar incessantemente!
Vou não ser sabendo que sou!
Porque isso é belo!
Porque a rejeição é magnífica!
Porque é maravilhosa,
É a verdadeira essência desta vida!...

Enfim, continuo a não saber o que estou a escrever,
Por isso, creio que estou num bom caminho…
 Eduarda Costa
12º C


ODE ELEMENTAR


Fogo do horóscopo
de um carneiro deambulante,
numa chama de hiperatividade
em que a faísca é mais rápida que o tempo.

Numa maré cheia,
divagando em reflexões
refletindo em cada gota
desse espelhado mar, que reflete
as incandescentes serpentes de uma industrialização notívaga.

Ecos inaudíveis, como de uma tarola
em que só o som do bombo
percuta, até romper a própria pele.

Reflexões elementares no fumo da natureza,
intensificando uma reflexão que já existe,
fluindo como o fumo e água
em que tudo o que se põe, se torna.

Sem forma, circundando qualquer
obstáculo que o destino dos dá,
adaptando-se ao meio como a água,
em reflexões frescas.

Ó ode elementar!
Tenso no tempo
com preocupações maiores que a de Atlas,
ajuda-me a fluir.
Flui!
Pedro Gracias 12º C

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